quarta-feira, agosto 30, 2006

O que estou fazendo se não gosto que seja assim?

Salvador seria uma cidade muito chata se os negros não tivessem vindo.
Eles trouxeram para nós a força espiritual, a alegria, o encanto com a vida.
Vieram para transformar e transformarem–se nessa simbiose étnica, cultural
e religiosa que é o povo da Bahia.
Penso nisso enquanto caminho na praia e vejo dois homens jovens, negros,
bonitos, treinando capoeira. Flexíveis, ágeis, gatos.
Não estou justificando a escravidão, embora, todos saibamos que era
um costume africano, e de outros povos mais antigos, vender inimigos
e os derrotados numa guerra. E escravizá-los.
O pior obstáculo para os negros ainda hoje, na minha opinião, e posso estar enganada,
ou não estar, é a aceitação da vitimização. A vítima aceita que foi vítima e não consegue deixar de sê-lo.
Se sente inferiorizada ao aceitar que é vítima e ao não assumir a responsabilidade que lhe
cabe por ser ou estar em determinada situação. Penso que a luta contra os algozes
não comporta o ódio. O ódio limita a visão. Minimiza o espírito. Aprisiona o intelecto.
Penso que devemos ter apenas o desprezo por pessoas que continuam pequenas apesar do tempo, da evolução científica, cultural, do acesso à Educação.
Mas não deixemos que o que pensam, dizem, ou fazem decidam pelo que somos e pelo que podemos ser.
Acho que ficar apenas, eu estou dizendo apenas, apenas, reclamando e ressaltando a dor do preconceito e da discriminação não conscientiza. Recondiciona.
Torna as pessoas mais sensíveis e inteligentes pressurosas em serem politicamente corretas. Afinal, o preconceito é burro e é medroso. As pessoas instruídas sabem disso.
Para mim, o politicamente correto é a mudança. Mudança porque tem que se mudar.
Mudar porque é preciso mudar o que é injusto, o que não está certo.
Mudar porque é um direito. E o direito deve ser usado se pisando, e rindo, em quem nos atrapalha o caminho.
Para poder se afirmar é preciso a não negação. O que é, é.
Sim, também tenho meus preconceitos. Ou conceitos.
Vou mudar o que não gosto. Dentro do que me fôr possível. Agora. Mais tarde verei o que pode e precisa ser feito...

segunda-feira, agosto 28, 2006

Em defesa do açúcar

A capa da revista Veja desta semana é um libelo contra o açúcar.
Fico indignada com os ataques a esse condimento que dá gosto a vida.
Viva os olhos de sogra, brigadeiro, pundins, pavês, sorvetes, os trans etc, etc, etc
Graças a eles aguentei estóicamente a obrigação de frequentar aniversários de crianças, quando meu filho era pequeno.
Ter que aguentar aniversário de crianças - cujas mães, pais, e os outros convidados você não conhece- para levar o filho que é o convidado, é uma das maiores provas de amor que existe.
E os filhos não reconhecem este sacrifício.
Às vezes fico pensando que só os doces podem salvar o planeta....
E nos livrar do tédio.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Resenha do general

Está saindo em Cuba um livro que reúne os discursos de Fidel Castro, entre 1959 e 2005, sobre a mulher e o processo revolucionário.
Considerando-se que cada discurso de Fidel leva uma média de 5h, quem será que se dispõe a ler um livro desses?
Não creio que exista uma mulher em juízo perfeito que se arvore a um empreendimento desse tipo. A não ser que goste de se auto-flagelar....
O que será que o general tem a dizer sobre a libertação da mulher num lugar onde a liberdade começa e termina onde ele determina?
Eu vou ficar sem saber.
Graças a Deus.

sexta-feira, agosto 18, 2006

O foguetório...

Vivendo em Salvador a gente se acostuma com todo tipo de barulho.
Afinal, o povo adora festejar. Festeja-se tudo. Até a derrota..
Quando o Brasil perdeu da França, na Copa, foi um tal de foguetório que um amigo comentou: “Nunca pensei que tivesse tanto francês na Bahia”. Não tem.
Na minha opinião, o povo detesta desperdiçar dinheiro. E como provavelmente comprou muitos fogos confiante na vitória do Brasil, o foguetório serviu, ao menos, para extravasar a decepção e a raiva. E para não ficar com sensação de prejuízo.
Festejar a vitória da França foi uma espécie de vaia para nossa seleção.
Pois é. Nas festas sacras tem foguetório. Nas pagãs também.
Numa segunda-feira à noite peguei um ônibus com o trajeto errado. Percebi que estava errado quando notei que ele estava fazendo muitas voltas. Não fiquei estressada porque, embora fosse demorar mais, no final ele ia acabar passando perto de onde eu teria que ficar.
Ruas estreitas, casas pobres, reconheci o lugar: Vale das Muriçocas... .
Passava o tempo lendo uma revista, quando ouvi um foguetório, e os gritos de uma mulher na rua me chamaram a atenção. Não me espantei. A surpresa veio quando meu olhar se voltou para dentro do ônibus: estava todo mundo deitado no chão. Não era foguetório, era tiroteio.
Me abaixei também, enquanto os passageiros gritavam para o motorista que parou o veículo: “Se adianta cara, sai daqui; parou por que”?
O motorista obedeceu e colocou o ônibus em funcionamento saindo da área de tiro. Poucos metros adiante as pessoas andavam e conversavam naturalmente, como se nada houvesse acontecido. Quem ouviu o barulho também deve ter pensado que eram foguetes.
“Como é fácil morrer”, comentou um amigo a quem narrei a história. “Você podia ter levado um tiro e morrido sem nem perceber”.
“É mesmo”, concordei assustada... Alguém vai passando leva uma bala, acorda em outro lugar e não sabe o que aconteceu: “Onde estou, que lugar é esse, que estou fazendo aqui ?”
Não gostei nem de pensar. Sei que é ser muito conservadora, mas torço para morrer numa situação de normalidade: velha e na cama de um hospital, com tudo arrumado, contas pagas, inclusive o enterro.
Será que estou sendo mórbida? Por que as pessoas não gostam de falar sobre uma coisa que vai acontecer fatalmente um dia???
O que me incomoda é a possibilidade da surpresa!

sexta-feira, agosto 11, 2006

A fé de
quem acredita
é igual a de
quem
não crê.

O crente e o ateu
defendem a sua
crença,
ou não crença,
com o mesmo ardor.

domingo, agosto 06, 2006

Amigas devem ser para sempre....

Essa tal virose que pegou muita gente em Salvador me pegou também. Com o nariz entupido e uma tosse seca irritante lá vou eu a um pneumologista para descobrir que ele me receitaria os mesmos medicamentos que eu já estava tomando por conta própria.
O médico me pediu, não sei porquê, um Raio X da face e dos pulmões. Passei numa clínica com disposição zero para esperar: se tivesse pouca gente eu faria os exames, senão iria embora. Tinha quatro pessoas na minha frente e é claro não esperei. Já fiz o meu diagnóstico: sinusite; a maldita sinusite.
Ao sair reparei numa mulher, encostada num carro, aspirando um cigarro com evidente prazer. “ Ótimo lugar para fumar. Bem em frente a uma clínica de pneumologia”, pensei com o rancor exacerbado dos ex-fumantes.
Ao prestar atenção na mulher, concluí que o fato não era tão inusitado assim. Afinal, a pessoa em questão era uma amiga com um talento notório para o inconvencional: Dóris, que a tempos eu não via. Ela foi à clínica para fazer um check-up. Quanto ao cigarro, qual o problema? Nenhum mesmo.
O papo esticou, filhos, amigos, trabalho e ela , como sempre que nos encontramos, lembrou de uma amiga comum que morreu de câncer há dois anos. E começamos a falar sobre Lúcia, criatura viva e inteligente que ignorou conscientemente um caroço que crescia em seu seio. Dóris guarda alguns dos melhores momentos compartilhados com Lúcia, que adora lembrar, e que chama de pérolas.
Uma das preferidas se passou num dias das mães da década passada, quando tínhamos como rotina nos encontrar nos fins de semana, ir à praia, e acabar comendo em algum barzinho perto do mar.
Antes de sair, Lúcia resolveu ir a uma floricultura diante de casa, no bairro da Graça, se desincumbir de uma obrigação: comprar flores para que o casal de filhos levassem para a avó, mãe do ex-marido.
Separou duas dúzias de rosas e mandou a moça fazer dois bouquets (ainda se usa essa palavra?) . Depois, perguntou o preço. A garota respondeu e ela pensativa .”Acho que é melhor fazer só meio bouquet prá cada um. E depois do novo pedido, novamente mudou de idéia.”Moça faça dois cartuchos com um arranjozinho . É suficiente”.
E voltando-se para Dóris, falou categoricamente: “Ex-sogra é investimento perdido” .
Rimos com a lembrança. Costumamos gargalhar quando lembramos dela nos jogos de buraco, que ainda fazemos de vez em quando. Seus palavrões, seu falso mau humor, sua irreverência. Ela está presente toda vez em que nos encontramos . Acredito, sinceramente, que ela deve estar bem onde estiver. E que também se lembra de nós.

domingo, julho 30, 2006

Resgate Cármico II



No processo de resgate cármico no qual me encontro, que é o de depender do sistema de transporte coletivo de Salvador, acontecem umas coisas que posso dizer, com um misto de vergonha e espanto, me encantam e me divertem. Estas coisas, obviamente, tem a ver com o povo baiano. Eu admiro esse povo pelo seu desprendimento, capacidade de adaptação, coragem, otimismo, bom humor, e uma certa cara de pau. Gosto e muito de fazer parte dele (exceto pela mania que algumas pessoas têm de colocar som alto e obrigar a vizinhança a compartilhar o mau gosto com eles . Sim, porque só bota som alto quem tem mau-gosto).
Hoje, tive que tomar dois ônibus para fazer um trajeto que faria normalmente em 20 minutos se estivesse de carro. Mas carma é carma e não tinha uma linha de busu, como são chamados pelos estudantes, que me levasse direto para o meu destino.
Isso tudo é só para contar que durante a viagementraram cinco ambulantes: três baleiros, uma vendedora de sachê, e um vendedor de canetas. Discursos na ponta da língua, clareza e objetividade, eles foram ótimos. Apesar dos meus triglicérides altos comprei umas balas bem doces, porque de amargo bastam os problemas da vida, e também para dar uma força ao vendedor que entrou bem arrumado, de calça e camisa social, sapatos e meias, com três sacos de balas nas mãos. Achei que ele era muito caprichoso e mereceia estar empregado numa loja legal.
Depois dele, entraram outros dois vendendo a mesma marca de bala, com mais variedade, porém menos estilo.
A moça do sachê, cabelos presos com presilhas, vestida com simplicidade, mas decentemente, fez um discurso simpático e no final, agradecendo com um sorriso, desejou a todos uma boa viagem. "Daria uma excelente aeromoça", pensei com meus botõezinhos de madrepérola.
Quase o ônibus inteiro comprou o sachê que ela oferecia a R$0,30.
Pensei em como o baiano gosta de cheirar bem. Deve ser herança dos nossos antepassados indígenas e africanos. Os índios não podiam ver água, e os africanos adoravam cheirar bem, tanto que trouxeram para nós os banhos de cheiro, feitos com plantas aromáticas.
Por último entrou o vendedor de caneta, com um olho vazado e riso gaiato. Anunciou suas canetas do Canadá, de três cores, prometeu dois meses de garantia, a quem o achasse se a caneta falhasse, e contou o caso de uma vizinha que comprou por R$1 uma caneta diferente da sua. “Ela colocou a caneta na bolsa, a caneta explodiu, acabou com os documentos, carteira de identidade, e com o celular. Era uma caneta do Iraque e ela não sabia”, informou.
Não segurei o riso, e ele me olhou agradecido já que ninguém parecia ter entendido a piada.
Bom, essa entrada de ambulantes em ônibus é normal. A depender do trajeto entram até uns 10. Haja resgate cármico nesse trabalho de resultado incerto .
E assim, eu acabei lembrando que o presidente Lula prometeu criar 10 milhões de empregos nesse seu mandato que já está acabando. Será que ele conta como emprego essa atividade dos nossos ambulantes?
Pensei em perguntar a minhas amigas Kátia e Mariinha, que se recusam a conversar comigo sobre o PT , com o argumento de que devemos manter incólume nossa velha amizade.
Ta bom. É melhor mesmo não falar sobe o tema.
Afinal, Lula passará. ..
Daqui a uns 20 anos a gente conversa sobre o assunto.
Se Deus quiser.

sexta-feira, julho 28, 2006

Êee boi..........

Seguir com a manada
pode ser seguro
e até divertido...
Mas, prefiro o
desconforto
a correr o
risco
de me
confundir,
e ser confundida,
com manchas,
chifres
e tetas....

quinta-feira, julho 20, 2006

Safári Urbano

Segundo Sartre, filósofo francês que fez a cabeça de milhares de jovens brasileiros nas décadas de 60, 70e 80 do século XX e que ainda hoje ainda é o preferido de muitos daqueles que compartilham de sua forma original de ver o mundo, o homem deve fazer uma opção sempre que a sociedade, a política, a educação e os hábitos adquiridos o coloquem numa encruzilhada de múltiplos caminhos. O ser humano, pode escolher entre ser covarde ou corajoso, cúmplice ou denunciador de crimes, acomodar-se a uma determinada situação, ou aceitar ou combater determinada realidade. De qualquer maneira deve afirmar-se nesta ou naquela situação e assumir a responsabilidade da opção, atuando e participando, mesmo que esta escolha se torne inquietante e incomoda.
Estou pensando em Sartre desde que assisti no noticiário da TV a apresentação dos assassinos do economista Victor Athayde Couto Filho, um jovem e talentoso intelectual morto por pessoas que trabalhavam e tinham trânsito livre no condomínio onde morava. A cara dos criminosos me causou repugnância e sentimento de perplexidade. Que espécies de pessoas eram aquelas? Gente? Não. Bichos.
Bichos na mais verdadeira expressão da palavra. Simplórios, idiotas, pareciam não ter consciência do ato que cometeram enm das suas conseqüências. O mentor do crime, Abelha, misto de pedreiro e cantor de Arrocha, teve o cinismo de se fazer de vítima e dizer que matou o economista por ele estar lhe cobrando um trabalho pago e não executado. Sem entrar no mérito moral do crime que chocou Salvador, me revolve o estômago o estágio mental e intelectual dessas criaturas miseráveis, semi-analfabetas, e de uma inteligência tão rudimentar que assusta. Para criaturas assim, ter um carro e uma boa casa é sinônimo de ser rico, de ser ‘barão’. E como bichos que são, agem pelo instinto. José Raimundo Abelha mostrou que além de amoral e cruel é burro.
Me desculpem , aqueles que acham que todos os pobres são vítimas das circunstâncias. Mas, as mentes simplórias são muito perigosas. Não existe razão, não existem argumentos. O Abelha seqüestra um homem conhecido e respeitado para roubar seus cartões e retirar dinheiro do banco, sai do condomínio no carro desse homem, e mesmo depois que a família divulga o desaparecimento, tenta comprar um celular com os dados do seqüestrado, e é visto pelas câmaras da agência bancária tentando retirar dinheiro com o cartão que não lhe pertence. Na verdade, Abelha e seus cúmplices não deveriam estar na cadeia. Deveriam estar numa jaula. E não me venham os farisaicos com pieguices: “Oh, eles são uns excluídos, coitadinhos, a culpa é da sociedade”...
Concordo. São excluídos e o pior - são nossa gente. Somos eles e eles são nós. E aí, fica nisso?
Simplismo

É óbvio, claramente óbvio, que estou sendo simplista. Mas, sou a favor da teoria conhecida como “a navalha de Ockham”, que com base em tudo o que é feito e dito, neste mundo sem pé nem cabeça, afirma que a resposta mais simples é geralmente a resposta correta. Para mim, está mais que claro. A resposta pula, dança, e faz strip-tease na nossa frente: ou se acaba com a exclusão, dando a todos os que nascem e vivem neste país educação, valores, conceitos, e a perspectiva de uma vida digna ou um dia vamos ter que andar pelas ruas como os visitantes num safári: em carros com grades e guardas armados. Educação, comida e moradia digna são direitos de todos.
Outro dia, na rua em que moro, tinha três bichinhos, digo meninos, dormindo debaixo de uma árvore. Descalços, maltrapilhos, cabelos com piolho, batiam nas portas pedindo comida. Alguém que deve ter se sentido ameaçado (e não totalmente sem razão) chamou a polícia. Os policiais vieram e disseram que não tinham para onde levar os garotos, um dos quais era conhecido arrombador de carros da área.
“Não tenho para onde levar eles, minha senhora. O único lugar onde posso levá-los para que não voltem , é para o cemitério”, disse um deles elegantemente.
Sendo assim, os policiais foram embora, os meninos voltaram a pedir comida, algumas pessoas deram e entraram nas suas casas tranqüilas, consciências lavadas com cloro (eu inclusive).
Os meninos foram para as sinaleiras tentar ganhar uns trocados, roubar alguém se tivessem oportunidade, e depois procurar outro lugar para dormir.... No dia seguinte, os meninos foram para as sinaleiras tentar ganhar uns trocados, roubar alguém se tivessem oportunidade, e depois procurar outro lugar para dormir... E no outro dia seguinte, os meninos foram para as sinaleiras tentar ganhar uns trocados, roubar alguém se tivessem oportunidade, e depois procurar outro lugar para dormir...

domingo, julho 09, 2006

A Copa mexeu comigo....


A Copa do Mundo acabou e eu, como a maioria dos brasileiros, fiquei decepcionada com a nossa seleção de estrelas incapazes de ter uma meta, que não fosse aparecer individualmente e brilhar cada qual mais que a outra.
Não sou técnica, não sou aficionada de futebol, nem coisa e tal, mas tampouco sou surda ou burra, e as coisas que eu ouvi e ouço me fazem pensar.
Que droga de jogadores são os nossos que não têm patriotismo, civismo, senso de dever para com a torcida, e que não dão ao povo ao qual pertencem, e que os venera, o orgulho de vê-los jogar como homens, dar o sangue, suor, o melhor de si?
Que percam quando o outro time jogar melhor, mas que percam com dignidade, com luta.
Me pergunto de que são feitos esses jogadores e eu mesma respondo desesperançosamente: da mesma matéria que a maior parte dos brasileiros, cuja filosofia de vida se resume a levar vantagem. Nem sempre a vantagem legal ou de que possam se orgulhar, mas a “vantagem” que nada mais é que mudar o padrão de vida a custa de métodos pouco honrosos, trapaças, trambiques e enganos.
Soube que muita gente revoltada rasgou a bandeira, a camisa e outros símbolos do país. Me choca a falta de consciência cívica desse povo: o que o Brasil tem a ver com uma seleção que atuou com negligência – só pode ter sido negligência não é? Afinal eles não eram os melhores do mundo... De qualquer forma, eles são nós.
Para a maioria, ser brasileiro é ter carnaval, uma boa seleção de futebol e mulheres sensuais, mesmo que beirem a vulgaridade, eque sejam vistas no exterior como objetos sexuais ou prostitutas. No dia em que esses estereótipos acabarem vai ficar o que?
A miséria, a falta de segurança, a demagogia e o populismo barato.
Estou vendo isso.
Mas como não sou pitonisa nem nada, acho que devemos manter a esperança em um milagre verdadeiro.
Que não seja o prometido pelos pretensos salvadores da pátria que não são capazes de salvar nem a si mesmos da calhordice e da falta de rumo.
O milagre verdadeiro de ver o que realmente se passa e saber que temos direito a mais do que um hexa-campeonato. Temos direito a um futuro sem medo, sem fome, e sem corrupção. Bem no mínimo...........

sábado, julho 01, 2006

Não esquecer..........

" E não te esqueças, meu coração, que as coisas humanas apenas mudanças incertas são".
Arquíloco

domingo, junho 04, 2006

Andar de ônibus é resgate cármico



Estou há dois anos sem carro. Ana Amélia, uma amiga advogada, também a pé, define a situação como um ‘resgate cármico’. Achei graça quando ela falou, mas depois parei para pensar: puxa, dois anos andando de transporte coletivo em Salvador é mesmo uma purgação espiritual. Para não falar em expiação física.
Mas, como não posso negar a minha face polianesca, não nego também que apesar dos pesares, andar de ônibus tem seu lado positivo. A gente fica conhecendo a cidade e o seu povo mais de perto. De carro, quando a gente está dirigindo não vê praticamente nada. Só o que está a frente. De ônibus, a gente pode observar o que está dentro e o que está fora: as partes mais sujas, as partes mais bonitas, uma casa numa encosta, uma árvore especial, um canteiro bem cuidado, um canteiro mal cuidado...
Pensar no que a prefeitura deveria fazer para melhorar a vida da população, diminuir os engarrafamentos, tornar as casas nas encostas mais seguras e bonitinhas; perceber o diferencial entre casas sujas e mal-cuidadas e a que se destaca mostrando o zelo do seu dono. Ver as outras pessoas que passam nos carros, nos ônibus, reparar nos rostos que esperam transporte nos pontos...
Quando estou sentada calmamente observo as coisas com um certo humor. Algumas me divertem. Os vendedores que transformam os ônibus em um mercado persa, que a toda hora entram no coletivo e vendem seus produtos (alguns são ótimos marketeiros; compro só pelo discurso). Outra me irritam, como mulheres com crianças pedindo ajuda, gente pedindo dinheiro e contando histórias que acho mentirosas. Decadência...Essas pessoas deveriam ser encaminhadas para um centro de reabilitação. Tipo, é proibido pedir esmolas e você tem duas escolhas : uma chance de ganhar a sua vida honestamente ou ir para a cadeia trabalhando para pagar a 'hospedagem'. Será que é muito chinês? muito Mao? Eu não acho.
Andar de ônibus é realmente um aprendizado .
Acho, inclusive que todas as pessoas que pleiteassem um cargo político deveriam ser obrigadas a andar de ônibus por, pelo menos, um ano. Aprenderiam a ver o que a cidade e o povo precisam. Quem sabe acabassem substituindo a demagogia e a retórica pelo trabalho e senso de dever.
Afinal, resgate é resgate.
E como diz a canção popular, 'o que dá prá rir, dá prá chorar'.
E vice-versa.

Obs. A ilustração que usei é de uma obra de Tarsila do Amaral e chama-se 'Operários".

quinta-feira, maio 11, 2006

De fato

É simples, óbvio, talvez
um clichê.
Deve-se levar em conta
que
as pessoas não podem ser,
mais do que o
que são.
E que não deveriam
ser nunca
menos
do que podem ser.

quinta-feira, maio 04, 2006

Pérola de Fritz

Gosto muito deste poema de Fritz Pearls que li há muitos, muitos anos.
Se existe algo que defina o COMO nos relacionamos uns com os outros, esta é a minha :

"Eu faço as minhas coisas
Você faz as suas.
Não estou neste mundo para satisfazer suas expectativas
E você não está neste mundo para viver conforme as minhas.
Você é você.
Eu sou eu.
E, se por acaso, nos encontrarmos
será maravilhoso.
E, se não
Não há nada a fazer"

quarta-feira, maio 03, 2006

Errar é humano.
Não errar também.
Errar é desumano.
Não errar também.

quinta-feira, abril 20, 2006

1, 2, 3 boca de lobo


Chove forte no Rio Vermelho.
Na rua enladeirada onde moro a água desce de enxurrada alagando a pracinha lá embaixo.
Não há uma só boca de lobo que não esteja entupida.
Vou ao telefone e ligo para o 156 - Serviço ao Cidadão. A secretária eletrônica atende e diz que logo serei atendida. Entra o jingle da "Prefeitura de Participação Popular".
“Quem ama tem respeito, quem ama só quer o bem ....quem ama assim de verdade não maltrata nem com uma flor, cuida bem de sua cidade quem ama São Salvador”...
Bonitinha a música... Despretenciosa...
O jingle entra de novo, de novo, e de novo: 40 segundos cada vez, sete, oito, nove vêzes. São 360 segundos de propaganda. Seis minutos. Terei que esperar mais 400 segundos, mil segundos?
As bocas de lobo vão continuar entupidas.
Desligo o telefone.
Vou ter que molhar os pés quando sair de casa.
O som da chuva é quente e aconchegante.
Mas eu odeio molhar meus pés.
Antes, quando era menina adorava tomar banho de chuva nas calhas das casas.
Botava o maiô e corria para as ruas com meus irmãos e outras crianças.
Era bom pular nas poças e contar pingos d’ água.
Até que minha mãe chegasse, ralhasse e nos botasse de castigo.
Que delícia o barulho da chuva...............
A menina da foto sou eu, aos 9 anos, num concerto em Feira de Santana.

quinta-feira, abril 13, 2006

Os olhos do padre Pinto


Padre Pinto largou a batina.
Foi expulso da casa onde viveu por várias décadas.
O caminhão de mudanças saiu na terça-feira da Lapinha levando os pertences do padre que promete botar prá quebrar.
Vai lançar um livro que se chamará “Confissões” sobre os seus 40 anos na Igreja.
Deve ter gente tremendo de medo.
Por outro lado, leio nos jornais que a CNBB recomenda aos católicos que não assistam ao Código da Vince. Por que isto me lembra religiões que fazem da ignorância dos fiéis a garantia de manutenção do poder?
Li o livro e é muito interessante. A história é tão possível quanto outros fatos narrados pela Bíblia. Ou tão impossível quanto.
Por que a Igreja não se dedica mais ao que Jesus pregou e não com a sua vida e morte?
Quanto ao padre Pinto, ele agora mostra a sua verdadeira face. Ou melhor, a que provavelmente sempre sonhou ter: cabelo vermelho, olhos pintados e batom metálico.
Para os curiosos, o novo padre pode ser visto em ensaio fotográfico no site www.globo.com/foto(underline)galeria/padrepinto, fazendo pose e com um cigarro na mão.
Enfim, a liberdade?

quarta-feira, abril 05, 2006

Uns e outros.......


Socorro Araújo, minha colega de trabalho, disse que só tenho amiga maluca. “E amigos tam-bém”, emendei. Alguns , por serem tão convencionais, tão tudo certo, tão tudo ok, não podem ser normais...
O certo é que toda pessoa é uma história.
Alegres, tristes, algumas que parecem linhas retas, outras sinuosas e curvas.
E histórias que podem ter isso tudo e muito mais.
Felizmente para mim, uma pessoa curiosa e inquieta, tenho amigos interessantes. Para o bem e para o mal. A maioria deles valeria um livro.
Contudo, como nem sempre o olhar do outro é o mesmo que o auto-olhar, quando esse auto-olhar existe, opiniões sinceras, mesmo que afetuosas, podem acabar em inimizade(imagino só o que meus amigos escreveriam sobre mim; provavelmente eu não iria gostar nem um pouco. E é claro, estaria coberta de razão).
Porém, é incontestável que determinadas pessoas, mais que outras, são fontes inesgotáveis de histórias: engraçadas, chocantes, subversivas, idiotas, substantivas, adjetivas e superlativas.
Tudo que elas fazem se transforma em motivo de comentários. São pessoas ricas, mesmo que não tenham um tostão. Suas existências tornam o mundo mais divertido, mais instigante, mais agradável. Elas próprias escreveram suas histórias e a reescrevem todos os dias.
Tem coisa mais chata que viver a vida que escolheram para nós?
Eu acho que não.

quinta-feira, março 30, 2006

Perdão Emília



Emília é nome de música.
A de Mário Lago, uma anti-homenagem, e a outra, a que lembro de ouvir minha avó cantar, é patética e ficou na minha memória. Eu voltei a ouvi-la já adulta, quando acabava meu curso de Jornalismo no Rio, e trabalhava no hoje extinto Teatro Opinião, em Copacabana. . Não, eu não era atriz, apesar do meu talento reprimido. E trabalhar é força de expressão. Eu era a moça da livraria. Por algum tempo, tomei conta do stand do teatro vendendo livros e programas das peças, um trabalho em que não ganhava praticamente nenhum dinheiro, mas onde me divertia bastante e conhecia muita gente interessante.
A música, cantada debochadamente por um grupo de samba muito bom, contava a história de um don Juan que ,cheio de remorsos por ter provocado o suicídio de uma donzela, ia pedir-lhe perdão na beira do túmulo. Minha avó só faltava chorar quando a ouvia no rádio. Eu a achava esquisita. Hoje vejo que ela é hilariante.
Sim, mas Emília é também o nome de uma amiga de minha irmã Alba, e ela não tem nada de trágica. Pelo contrário. É altíssimo astral. Só que como a maioria dos artistas , e das pessoas criativas, um pouquinho desligada. Emília me fez prestar mais atenção na minha indumentária praieira- o máximo do meu desligamento foi sair com uma saia cuja bainha estava apenas alinhavada, e com uma blusa pelo avesso ( em ocasiões diferentes, é claro).
É que Emília acordou radiante num domingo de sol também radiante. Pegou o biquíni, vestiu-o, e estava quase saindo quando o telefone tocou. Perdeu uma meia hora de sol batendo papo. Enfim, tchau, tchau. Amarrou a canga na cintura e se dirigiu para o Farol da Barra., praia que costumava freqüentar com os amigos e que ficava perto de sua casa. A praia estava coalhada de gente, o mar azul, e o barquinho a navegar....
Emília andou, andou, andou, como sempre, metendo os pés na água azul e morna.. Mas, dessa vez havia alguma coisa diferente. As pessoas a olhavam quando passava, uns de esguelha, outros fixamente, e ela achou estranho. Afinal, não era mais uma menina , e nunca fora uma miss. Que coisa!
Bom, fazer o que? pensou despreendida até que, ao passar por ela, um velho acompanhado da mulher olhou em sua direção desaprovadoramente, virou para o lado e cuspiu.
Que choque. Ela parou e pensou: “o que será que tem de errado comigo?”. Num balanço rápido veio a resposta: “Meu Deus, esqueci de colocar a calcinha do biquíni”.
Não, não estava nua (antes estivesse). Vestia uma calcinha velha, que aqui o pessoal mais antigo chama de calçola. Uma calçola branca, com o elástico esgarçado, manchada de tinta, e com alguns furinhos , que ela adorava usar dentro de casa..
Sentiu que o mundo desabava. O dia radiante não era mais radiante. Viu tudo negro na sua frente. . E não sabia se era de vergonha ou de raiva .
Diante do impasse, fez o que qualquer mulher sábia faria. Sentou numa pedra e chorou, chorou, chorou...

domingo, março 19, 2006

Doces e portas


Eu estava dando uma olhada nas fotos do site de minha amiga Stela Alves sobre a Grécia e uma me encantou especialmente. A da entrada de uma casa. Esta que vocês estão vendo. Adorei as cores da fachada e os vasos com plantas. É uma casa grega, mas poderia ser uma casa em qualquer lugar no mundo. A casa de alguém que gosta do lugar onde mora e que faz da sua casa um cantinho muito próprio, muito pessoal, muito especial. Uma casa, onde as pessoas que chegam devem pensar que serão sempre bem vindas.
E devem ser. É claro que Stela- sempre ciosa do seu trabalho- me deu autorização para editar a foto. Com ela, é assim. . .
Quem quiser ver as fotografias( tem umas ótimas da Bahia ) pode entrar no site dela: www.stelalves.com.
Ah, gente, fui a um aniversário ontem e comi doces feito uma criança....
Hoje estou muito mal.
Bem feito. Mais uma culpa para minha lista .
A questão é: sei que comeria todos novamente.
Estavam maravilhosos....