quinta-feira, maio 11, 2006

De fato

É simples, óbvio, talvez
um clichê.
Deve-se levar em conta
que
as pessoas não podem ser,
mais do que o
que são.
E que não deveriam
ser nunca
menos
do que podem ser.

quinta-feira, maio 04, 2006

Pérola de Fritz

Gosto muito deste poema de Fritz Pearls que li há muitos, muitos anos.
Se existe algo que defina o COMO nos relacionamos uns com os outros, esta é a minha :

"Eu faço as minhas coisas
Você faz as suas.
Não estou neste mundo para satisfazer suas expectativas
E você não está neste mundo para viver conforme as minhas.
Você é você.
Eu sou eu.
E, se por acaso, nos encontrarmos
será maravilhoso.
E, se não
Não há nada a fazer"

quarta-feira, maio 03, 2006

Errar é humano.
Não errar também.
Errar é desumano.
Não errar também.

quinta-feira, abril 20, 2006

1, 2, 3 boca de lobo


Chove forte no Rio Vermelho.
Na rua enladeirada onde moro a água desce de enxurrada alagando a pracinha lá embaixo.
Não há uma só boca de lobo que não esteja entupida.
Vou ao telefone e ligo para o 156 - Serviço ao Cidadão. A secretária eletrônica atende e diz que logo serei atendida. Entra o jingle da "Prefeitura de Participação Popular".
“Quem ama tem respeito, quem ama só quer o bem ....quem ama assim de verdade não maltrata nem com uma flor, cuida bem de sua cidade quem ama São Salvador”...
Bonitinha a música... Despretenciosa...
O jingle entra de novo, de novo, e de novo: 40 segundos cada vez, sete, oito, nove vêzes. São 360 segundos de propaganda. Seis minutos. Terei que esperar mais 400 segundos, mil segundos?
As bocas de lobo vão continuar entupidas.
Desligo o telefone.
Vou ter que molhar os pés quando sair de casa.
O som da chuva é quente e aconchegante.
Mas eu odeio molhar meus pés.
Antes, quando era menina adorava tomar banho de chuva nas calhas das casas.
Botava o maiô e corria para as ruas com meus irmãos e outras crianças.
Era bom pular nas poças e contar pingos d’ água.
Até que minha mãe chegasse, ralhasse e nos botasse de castigo.
Que delícia o barulho da chuva...............
A menina da foto sou eu, aos 9 anos, num concerto em Feira de Santana.

quinta-feira, abril 13, 2006

Os olhos do padre Pinto


Padre Pinto largou a batina.
Foi expulso da casa onde viveu por várias décadas.
O caminhão de mudanças saiu na terça-feira da Lapinha levando os pertences do padre que promete botar prá quebrar.
Vai lançar um livro que se chamará “Confissões” sobre os seus 40 anos na Igreja.
Deve ter gente tremendo de medo.
Por outro lado, leio nos jornais que a CNBB recomenda aos católicos que não assistam ao Código da Vince. Por que isto me lembra religiões que fazem da ignorância dos fiéis a garantia de manutenção do poder?
Li o livro e é muito interessante. A história é tão possível quanto outros fatos narrados pela Bíblia. Ou tão impossível quanto.
Por que a Igreja não se dedica mais ao que Jesus pregou e não com a sua vida e morte?
Quanto ao padre Pinto, ele agora mostra a sua verdadeira face. Ou melhor, a que provavelmente sempre sonhou ter: cabelo vermelho, olhos pintados e batom metálico.
Para os curiosos, o novo padre pode ser visto em ensaio fotográfico no site www.globo.com/foto(underline)galeria/padrepinto, fazendo pose e com um cigarro na mão.
Enfim, a liberdade?

quarta-feira, abril 05, 2006

Uns e outros.......


Socorro Araújo, minha colega de trabalho, disse que só tenho amiga maluca. “E amigos tam-bém”, emendei. Alguns , por serem tão convencionais, tão tudo certo, tão tudo ok, não podem ser normais...
O certo é que toda pessoa é uma história.
Alegres, tristes, algumas que parecem linhas retas, outras sinuosas e curvas.
E histórias que podem ter isso tudo e muito mais.
Felizmente para mim, uma pessoa curiosa e inquieta, tenho amigos interessantes. Para o bem e para o mal. A maioria deles valeria um livro.
Contudo, como nem sempre o olhar do outro é o mesmo que o auto-olhar, quando esse auto-olhar existe, opiniões sinceras, mesmo que afetuosas, podem acabar em inimizade(imagino só o que meus amigos escreveriam sobre mim; provavelmente eu não iria gostar nem um pouco. E é claro, estaria coberta de razão).
Porém, é incontestável que determinadas pessoas, mais que outras, são fontes inesgotáveis de histórias: engraçadas, chocantes, subversivas, idiotas, substantivas, adjetivas e superlativas.
Tudo que elas fazem se transforma em motivo de comentários. São pessoas ricas, mesmo que não tenham um tostão. Suas existências tornam o mundo mais divertido, mais instigante, mais agradável. Elas próprias escreveram suas histórias e a reescrevem todos os dias.
Tem coisa mais chata que viver a vida que escolheram para nós?
Eu acho que não.

quinta-feira, março 30, 2006

Perdão Emília



Emília é nome de música.
A de Mário Lago, uma anti-homenagem, e a outra, a que lembro de ouvir minha avó cantar, é patética e ficou na minha memória. Eu voltei a ouvi-la já adulta, quando acabava meu curso de Jornalismo no Rio, e trabalhava no hoje extinto Teatro Opinião, em Copacabana. . Não, eu não era atriz, apesar do meu talento reprimido. E trabalhar é força de expressão. Eu era a moça da livraria. Por algum tempo, tomei conta do stand do teatro vendendo livros e programas das peças, um trabalho em que não ganhava praticamente nenhum dinheiro, mas onde me divertia bastante e conhecia muita gente interessante.
A música, cantada debochadamente por um grupo de samba muito bom, contava a história de um don Juan que ,cheio de remorsos por ter provocado o suicídio de uma donzela, ia pedir-lhe perdão na beira do túmulo. Minha avó só faltava chorar quando a ouvia no rádio. Eu a achava esquisita. Hoje vejo que ela é hilariante.
Sim, mas Emília é também o nome de uma amiga de minha irmã Alba, e ela não tem nada de trágica. Pelo contrário. É altíssimo astral. Só que como a maioria dos artistas , e das pessoas criativas, um pouquinho desligada. Emília me fez prestar mais atenção na minha indumentária praieira- o máximo do meu desligamento foi sair com uma saia cuja bainha estava apenas alinhavada, e com uma blusa pelo avesso ( em ocasiões diferentes, é claro).
É que Emília acordou radiante num domingo de sol também radiante. Pegou o biquíni, vestiu-o, e estava quase saindo quando o telefone tocou. Perdeu uma meia hora de sol batendo papo. Enfim, tchau, tchau. Amarrou a canga na cintura e se dirigiu para o Farol da Barra., praia que costumava freqüentar com os amigos e que ficava perto de sua casa. A praia estava coalhada de gente, o mar azul, e o barquinho a navegar....
Emília andou, andou, andou, como sempre, metendo os pés na água azul e morna.. Mas, dessa vez havia alguma coisa diferente. As pessoas a olhavam quando passava, uns de esguelha, outros fixamente, e ela achou estranho. Afinal, não era mais uma menina , e nunca fora uma miss. Que coisa!
Bom, fazer o que? pensou despreendida até que, ao passar por ela, um velho acompanhado da mulher olhou em sua direção desaprovadoramente, virou para o lado e cuspiu.
Que choque. Ela parou e pensou: “o que será que tem de errado comigo?”. Num balanço rápido veio a resposta: “Meu Deus, esqueci de colocar a calcinha do biquíni”.
Não, não estava nua (antes estivesse). Vestia uma calcinha velha, que aqui o pessoal mais antigo chama de calçola. Uma calçola branca, com o elástico esgarçado, manchada de tinta, e com alguns furinhos , que ela adorava usar dentro de casa..
Sentiu que o mundo desabava. O dia radiante não era mais radiante. Viu tudo negro na sua frente. . E não sabia se era de vergonha ou de raiva .
Diante do impasse, fez o que qualquer mulher sábia faria. Sentou numa pedra e chorou, chorou, chorou...

domingo, março 19, 2006

Doces e portas


Eu estava dando uma olhada nas fotos do site de minha amiga Stela Alves sobre a Grécia e uma me encantou especialmente. A da entrada de uma casa. Esta que vocês estão vendo. Adorei as cores da fachada e os vasos com plantas. É uma casa grega, mas poderia ser uma casa em qualquer lugar no mundo. A casa de alguém que gosta do lugar onde mora e que faz da sua casa um cantinho muito próprio, muito pessoal, muito especial. Uma casa, onde as pessoas que chegam devem pensar que serão sempre bem vindas.
E devem ser. É claro que Stela- sempre ciosa do seu trabalho- me deu autorização para editar a foto. Com ela, é assim. . .
Quem quiser ver as fotografias( tem umas ótimas da Bahia ) pode entrar no site dela: www.stelalves.com.
Ah, gente, fui a um aniversário ontem e comi doces feito uma criança....
Hoje estou muito mal.
Bem feito. Mais uma culpa para minha lista .
A questão é: sei que comeria todos novamente.
Estavam maravilhosos....

domingo, março 12, 2006

Que falta me faz a fluoxetina...

Hoje fez 15 anos que minha avó, Flora, mãe de meu pai, morreu. Agora, que lembrei...
Como o tempo passou rápido. Parece que a vi ontem.
Vem um sentimento esquisito. Não é saudade. É alguma coisa como agradecimento....
Ela gostava tanto de mim. Eu me sentia tão especial para ela.
Minha outra avó, Raquel, 93 anos, passou mal anteontem.
De raiva. Com o final da novela da Globo.
“Como é que aquele idiota (teria dito ela se referindo ao autor Walcyr Carrasco) faz a gente assistir a novela quase um ano para ver os artistas morrerem no final?”
Minha tia-avó, Cele, também passou mal. As duas estão mais que revoltadas. E prometem não assistir mais novelas em que os personagens principais morram no fim.
Minha mãe, que quase nunca concorda com o que minha avó diz ou pensa, está fechada com ela. Achou o final péssimo, feito para espíritas. E ela é batista. Meu bisavô foi pastor.
Aliás, quando eu era menina, em Jequié, nos domingos de manhã ia para a Igreja Batista, com a minha mãe e minha irmã Alba, onde recitava, cantava e satisfazia minha vontade de aparecer.
No final da tarde lá ia eu para a missa, com minha avó Flora, catolicissima, carregando um catecismo, um terço e usando um veuzinho rendado na cabeça. Era o máximo. Eu me sentia como uma santa que acabasse de descer do céu. Domingos de sapatos brancos, anáguas rodadas, vestidos de festa, e culpas: "toda malcriação que você faz é um espinho que você coloca na coroa de Jesus"....
Hoje, percebo , acordei com um surto hipocondríaco, dor nas pernas e nas costas. Lembrei que minha amiga Lúcia F., que morreu de câncer, detectou um caroço no seio após sentir dores nas pernas. Estou deprimida?
Será vovó Flora, vovó Raquel, Lúcia F., as almas gêmeas?
Passei boa parte do domingo arrumando meu quarto. O armário ficou dez: blusas e casacos de um lado, calças e saias de outro, sapatos arrumados nas caixas; perfumes e cremes numa prateleira; pastas separadas com recibos, notas fiscais, documentos e fotos. Por vias das dúvidas tudo em dia. “Eu sempre fiz o que quis na minha mocidade”....
Espero continuar fazendo tudo o que eu quiser. E não fazendo o tudo o que eu não quiser.
Mas, confesso, tem uma coisa que perdi e lamento : nunca fui anjinho de procissão...

Ah, Sosígenes..e eu nem sabia que você existia...

Descobri Sosígenes Costa bisbilhotando num stand da Empresa Gráfica da Bahia. O livro, um estudo de Gerana Damulakis sobre ele, chama-se “Sosígenes Costa, o poeta grego da Bahia”. Não o conhecia. Sua obra vai de 1921 a 1960. Poeta de altíssima qualidade.
Gostei especialmente deste soneto que transcrevo agora:

Emendando um soneto

Eu matei meu amor e foi bom que o matasse
Meu amor era um lírio e eu não gosto de lírio.
Se ele fosse a madona, eu talvez me casasse
Para o amor me adorar e eu gozar-lhe o delírio.

Eu matei meu amor sem beijá-lo na face.
Meu amor era um lírio e eu não gosto de lírio.
Se ele fosse o meu anjo, eu talvez me casasse
Para vê-lo fumando e descendo do empíreo.

Ninguém sabe quem foi meu amor que matei.
Era o anjo da morte?Era a filha de um rei?
Este crime é um mistério... e é bonito o mistério.

Este segredo azul pus num cofre sidério
Mas em suma eu fiz bem em matar meu amor,
Porquanto ele era um lírio e eu não sou beija-flor.


Por falar em grego, recebi mensagem de Stela Alves, fotógrafa amiga e ex-colega de reportagens e de aventuras na Tribuna da Bahia, quando éramos quase meninas. Hoje, ela vive na Alemanha. O e-mail com o seu site era um presente com fotos da Grécia.
Que azul lindo o daquele mar ...
Mas, falar em mar, não tenho inveja. Hoje à tarde andei na praia, tomei banho na água verde acinzentada gelada por uma frente fria, que ,segundo o Serviço Meteorológico, deve chegar esta semana.
Foi tão bom.................

sexta-feira, março 03, 2006

Boker Washington

Quem disse que a "Caras" não é cultura?
Esta pérola encontrei num exemplar da revista que folheava meio indiferente, meio enfadada, no consultório da minha dentista.
"Jamais permitirei que uma pessoa me leve a odiá-la e com isso amesquinhe e degrade a minha alma". Boker, adorei ele, é- um cara assim não morre- um ex-escravo e educador afro-americano. Não sei se ele realmente conseguia isso.Talvez sim. Pessoas de alma grande sublimam mais e melhor.
Como falei em alma me lembrei de outro que eu gosto muito (ou como leitora de "Caras" melhor dizer que "amo de paixão") que é Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena se a alma não é pequena". Não é assim mesmo?
Quanto ao meu gosto literário devo dizer a meu favor que leio qualquer coisa para passar o tempo. De bula de remédio a revista de automóveis. Aliás, na minha próxima encarnação quero ser mecânica.
Enquanto isto, viva a variedade literária.
A gente pode não ganhar muita coisa , mas aprende sobre a diversidade humana. E todo aprendizado é uma aquisição e nos torna mais ricos. Eu acho...
E para continuar no clima : "beijos no coração"

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Homens de avental


Quem acha que homem não esquenta a barriga no fogão, está mais do que certo.Não esquenta mesmo. O negócio deles é entrar na cozinha e sair o mais rápido possível. Eu adoro este estilo culinário masculino. Outro dia , entrei no restaurante do jornal e me sentei numa mesa eminentemente masculina onde se falava de tudo. Até de comida.
Pensando na quantidade de legumes não aproveitados na geladeira, me virei para Dimitri, paginador e artista gráfico, e comentei que estava com um monte de chuchu pedindo para ir pro lixo (eu sei gente, chuchu não fala, é apenas uma expressão). Ele me sugeriu que eu fizesse suflê. Logo, logo todos os sabidinhos começaram a me dar receitinhas e eu fiquei encantada. Não porque goste de cozinha, muito pelo contrário, mas a possibilidade de ter uma autonomia culinária, mesmo não sendo das mais saudáveis (estes meninos adoram mussarela e ovos) peguei um caderninho e comecei a anotar.
Resolvi botar algumas receitas de pratos e lanches rápidos neste blog pensando em ser útil aos que , como eu, são avessas e avessos a perder tempo no fogão. Não que eu ache ruim gostar de cozinhar. Hoje em dia os homens e as mulheres modernos têm que saber se virar. Gosto não se discute, diz o velho ditado. Eu, na verdade, prefiro degustar.
Mas aí vai:

Souflê de Dimitri
É facílimo. Põe o chuchu no fogo (dentro de uma panela com água é claro) depois de descascá-lo e cortá-lo em rodelas ou no sentido longitudinal, como preferir. Quando ele estiver cozido bota prá escorrer. Então, pega uns dois ovos ou mais, a depender da quantidade do chuchu e de quem vai comer, bate as claras e depois mistura com a gema batendo bem. Arruma uma camada do chuchu num pirex, joga os ovos em cima bota uma camada de queijo mussarela e leva ao forno.Fica olhando para não deixar queimar,tá ? Eu deixei.

Tortillas de Dadá Jaques
Material empregado: batatas, ovos,cebola e sal
1º Descasca a batata e corta em fatias circulares grossas
2º mergulha na água e sal e deixa descansar 15 m
3º Pega uma frigideira profunda e coloca bastante óleo
4º quando o óleo estiver quente enxugar as batatas com um pano limpo
5º bota a batata prá fritar até ficar douradinha
6º tira a batata e coloca num papel toalha;guarda o óleo
7º bate a clara o ovo, depois mistura e bate bem;tempera com sal
8º bota uma camada suave de óleo na frigideira, joga o ovo, quando começar a endurecer joga a batata e o ovo por cima e tampa
9º quando ficar toda assadinha, pega uma espátula e vira o lado; na verdade, parece um omeletão de batata
10º Será que ficou bom?


Miojo de Luís Marcelo
Bota a água pra esquentar e bota o miojo dentro.Depois de ferver escorre tira o miojo com uma parte de água; deixa outra parte na panela. Na panela com a água bota uma colher de extrato de tomate, uma colher de sobremesa de manteiga ou margarina, o pozinho do miojo e ketchup a gosto. Mexe e mistura os ingredientes. Luís Marcelo garante que é uma delícia....Hummm..Sei não.

Bom, tem alguma coisa com abóbora que parece ótimo, mas eu não anotei ainda.
Tem também o purê de Jamil (só de pensar minha boca enche de água).
Segundo ele é receita de Dadá, não o Jaques, mas a quituteira mais famosa da Bahia, dona do Tempero e do Varal da Dadá
É assim: pega banana da terra e bota pra cozinhar; quando estiver mole, bate a banana com um garfo. Põe um pouco e manteiga numa panela, joga a banana amassada e vai colocando creme de leite até ficar com a consistência de um purê. Não parece delicioso?
É como eu ( e muita gente sempre diz ) : nunca é tarde para começar -um clichê é claro E eu acrescentaria: e nem para terminar. Espero começar e terminar este meu livrinho de receitas rapidinhas. Aliás, espero experimentar todas elas.
Beijos e um bom início de semana para todos.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Tulipa Azul

Virtude fundamental
é a integridade.
Permanecer una
quando o mundo
ao redor
se desintegra.
De mim,
os amigos
podem esperar
honestidade,
lealdade,
e a defesa.
Os inimigos,
se eu os tiver,
não devem
se preocupar
comigo.
Não os vejo,
não sei
quem são,
não sei o
que falam,
não me interessa
o que pensam
ou o que
fazem.
Na minha vida
eles não
existem.
E não sou nihilista.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O dia em que o síndico subiu no telhado

Vida difícil a de síndico Ainda mais síndico de prédio pequeno que às vezes tem que fazer papel de encanador, de eletricista, e até de conciliador. Um dia a bomba quebra, no outro quebra o portão da entrada, o zelador não aparece, os jornais desviados que não chegam aos donos, infiltrações, vazamentos etc.Paciente, Fofo, como era mais conhecido graças ao seu fair-play e a alguns quilinhos a mais, sabia bem o que isso significava como síndico de um agradável prédio no bairro do Rio Vermelho há oito anos, cargo que nenhum morador queria e que ele ia empurrando com a barriga.
Sempre que podia fazia ouvidos moucos para as queixas que surgiam por todos os motivos possíveis. Uma delas, e que também o incomodava, era contra o vizinho pagodeiro - de outro prédio – que transformava os domingos da vizinhança num inferno de mau gosto e de barulho. Fazer o que? Enfrentar o marombado exibicionista? Limitava-se a dar sugestões: chamar a Secretaria de Meio-Ambiente ou comprar protetores auriculares. O estresse estava demais.
Felizmente tinha resolvido o problema do vazamento no terceiro andar, que vinha se protelando há quase seis meses, com o conserto do telhado.
Findo o trabalho, os operários foram chamá-lo para que desse o ok e pagasse as contas.“Sêo” Fofo subiu tranqüilamente para o telhado e fez a inspeção se dando por satisfeito. Na hora de descer veio a caruara. Como foi que conseguira passar por aquele buraquinho no teto do prédio? Só agora reparara que a escada estava bamba, era pequena, rudimentar e provavelmente não agüentaria o seu peso. O que fazer? O senhor consegue “Sêo” Fofão tentavam animá-lo os operários, loucos para dar o trabalho por terminado.A moradora do 3º andar, pomo da questão colocou a cabeça na varanda e gritou “você quer que eu chame o Corpo de Bombeiros?”Nem pensar. Imaginou o caminhão fechando a rua e o trânsito, e ele se transformando no assunto principal dos porteiros e empregadas da rua por pelo menos alguns meses... “Cuidado você vai pegar uma insolação”, gritou uma outra vizinha, sugerindo maldosa: “Por que você não dá uma de Mary Poppins? Quer que eu arranje um guarda-chuvas?”
As tentativas de ajuda se multiplicavam. Os operários pregaram o resto de uma escada quebrada na outra e insistiam para que ele a usasse. Nem morto.
Contudo, depois de 4h sob o sol escaldante de uma manhã de verão baiano, exausto e pressionado pelos operários já exasperados, ele cedeu. “Seja o que Deus quiser”, pensou. Colocou o pé no primeiro degrau. A escada não quebrou. Mais um pé, mais outro e mais outro. Nunca ficou tão feliz ao pisar no chão. Agora era tomar banho e ir trabalhar. Mas como vestir a camisa? Estava vermelho e sua pele toda doía. Ao chegar no trabalho, a curiosidade dos colegas: “por que você está tão queimado?Estava na praia”? Fingia que não ouvia até que por fim uma colega indiscreta a quem coonfidenciara o drama revelou: “ Que praia que nada, ele subiu no telhado e não conseguiu descer”.
Bom, agora era agüentar as gozações e torcer para que a dor das queimaduras passasse logo. Afinal, síndico era para essas coisas...

terça-feira, janeiro 17, 2006

Padre Pinto saiu da batina

Minha amiga Mariinha ficou intrigada porque eu escrevi no meu textinho sobre o Bonfim que ano que vem irei a festa, mesmo que esteja morta, e logo em seguida falei sobre minhas preocupações com o Padre Pinto. Como psicanalista, que ela é, vive procurando sentidos perdidos nas entrelinhas.
Será que tem?
Padre Pinto está mais vivo do que nunca.
Depois de saracotear no dia da festa de Reis, na Igreja da Lapinha, de olhos pintados, trajando uma batina amarelo-ouro em homenagem a Oxum, e de se vestir de índio no dia seguinte, dançar nas pontas dos pés , sacudir os ombros, deleitar alguns fiéis e chocar outros, ele foi obrigado a consultar um psiquiatra e sair de circulação por uns tempos. " Estaria sofrendo com a execração pública ?".
Pobre padre, um homem com alma de artista preso numa batina ( ou quem sabe protegido por ela) . E que saída espetaculosa...
A Igreja tão misericordiosa com padres pedófilos, 'irmãos necessitando de ajuda', garantiu seu status quo divulgando que o padre/dançarino estaria precisando de cuidados terapêuticos. Ele que não fez mal a ninguém. Apenas nos espantou, nos divertiu, e nos deixou melancolicamente pensando no sentido da existência. Soltou sua vontade de dançar, um direito a alegria quem não tem?
E eis que hoje abro jornais locais e lá está ele: alegre e fagueiro. Bronzeado pelo sol da ilha, cheio de novos amigos, calça de cordão, camiseta, muito colares, pulseirinhas da moda, boina de negão na cabeça, sorridente. Cheio de planos.
Será que a Lapinha perderá um padre e Salvador ganhará mais uma estrela na sua imensa constelação?
Minha simpatia para Padre Pinto que me fêz rir e pensar.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Ano que vem eu vou

Eu não fui à festa do Bonfim ontem. Que raiva.
Não que eu seja festeira embora, quem não me conheça bem, ache que eu sou
Mas, a festa do Bonfim é a minha preferida entre todas da Bahia.
Apesar de ter fé não costumo mais ir a pé até a Sagrada Colina.
Mas me divirto muito ficando na Cidade Baixa vendo passar as baianas e todo tipo de gente. Adoro as fanfarras.
Depois que tiraram o Trio Elétrico ficou muito melhor.
E as figuras que aproveitam o cortejo para curtir seus 15 minutos de fama? Deliciosas.
Pois é. Não fui. Optei por concluir uma pilha de trabalho que me esperava.
Não sem sensação de perda. Perda de momentos alegres e de interação popular.
Vi pela Tv , no trabalho , junto com uma colega que a cada cena ficava toda arrepiada.
Essas festas populares também me arrepiam.
Ano que vem, eu vou. Até morta, eu vou.
Agora, sem mais nem menos me lembrei de Padre Pinto.
Como será que ele está ?

domingo, janeiro 08, 2006

Quem diria....

Ando meio
sem saco
sem pulso
sem laço.
O tédio me ronda
como um gato.
E eu que
pensava
que ele já
estivesse
morto
e
enterrado.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

O misterioso réveillon de Marta

A pelo menos 20 anos elas se encontravam, sempre nos finais de semana, para conversar e colocar as novidades em dia. Desta vez o encontro no primeiro dia do ano foi na praia de Piatã, onde costumavam andar na areia e assistir ao por do sol, cercadas por coqueiros, vendedores de coco, cachorros vadios , turistas, e os insuportáveis candidatos a craques de futebol.
"Onde voce se meteu no réveillon?" perguntaram cinco vozes a Marta , que sumiu no dia 31 só reaparecendo no dia primeiro, quando ligou convidando - as para comer peixe frito na praia.
Marta desconversou enquanto elas se distraíam com comentários sobre os festejos: o réveillon na Bahia Marina que custou R$ 1 mil, " que desperdício! como você teve coragem?", a festa na Praia da Paciência, cenário do filme Luar em Parador, com Sonia Braga, "gostei mais do ano passado na Cruz Caída", o réveillon na cama- dormindo, o réveillon em família. " E você passou aonde?"
Marta,tensa, foge de pergunta. "Que segredo é esse?", insistem.
- Não me diga quer voce voltou com Bin Laden , fala Sonia se referindo ao ex- magrelo e barbudo da amiga .

- Não, não foi nada disso.
- Então criatura, conte logo, que mistério é este? Afinal, onde você passou o réveillon?
Pressionada, Marta conta envergonhada : "Sabem Lícia, minha vizinha, que em 2005 foi para a Finlândia, Noruega, Suécia, visitou a Índia, a Espanha e o Chile e ainda por cima reformou a casa?
-Sim, respondem em uníssono...
- Bom , ano passado ela fez uma simpatia que ensinaram a ela e deu no que deu. Este ano eu resolvi experimentar ...

- Para isto tinha que ficar em casa?
-Não necessariamente, se você não tem uma reputação a zelar. É assim: a gente tem que ficar com uma mala vazia rodando ao redor de uma mesa na hora da virada, falando compassadamente : dinheiro, viagens, amor, dinheiro, viagens, amor, " confessa ressabiada esperando o sarcasmo do grupo: afinal, como é que uma mulher na idade dela, ex-marxista, psicanalisada, financeiramente independente, culta, razoavelmente viajada, pode se ligar numas bobagens dessas?

Resignada, espera o veredicto.
As amigas se entreolham, e indignadas se viram para a traidora perguntando quase ao mesmo tempo :
- Por que é que voce não nos chamou???

sábado, dezembro 31, 2005

Feliz 2006

(Este poema de Cora Coralina é simples, suave e sintético : o que somos é o que tocamos e o que sentimos em relação ao outro e a nós mesmos; a amizade dá calor às nossas vidas. Ter nada mais é do que ser fiel a si mesmo. Bom Ano Novo queridos amigos)

Não sei...
se a vida é curta...
Não sei...
Não sei...
se a vida é curta
ou longa demais para nós.
Mas sei que nada
do que vivemos
tem sentido
se não tocarmos
o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe,
braço que envolve,
palavra que conforta,
silêncio que respeita,
alegria que contagia,
lágrima que corre,
olhar que sacia,
amor que promove.
E isso não é coisa
de outro mundo:
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela
não seja nem curta,
nem longa demais,
mas que seja intensa,
verdadeira e pura...
enquanto durar.
Cora Coralina

domingo, dezembro 25, 2005

Esperanças natalinas....





Hoje, dia de Natal, perdi meu celular quando caminhava na praia e fiquei desesperada. Não pelo celular, que era simplezinho, embora cumprisse a função primária de um celular que é de ligar e receber ligações, mas porque continha minha preciosa agenda e era de conta.
“Tomara que tenha caído no mar e Iemanjá tenha levado”, pensei preocupada.
Tentei ligar para a Vivo por mais de uma hora para pedir o bloqueio do meu número, sendo atendida pela gravação que me passava para um número que chamava, chamava e ninguém atendia ( ué, a operadora não anuncia que funciona 24h?).
Comecei a fantasiar: e se a pessoa que o encontrou resolvesse ligar para os EUA, para a Tailândia, para o diabo que o carregue, de quanto seria minha conta?
Para me precaver, fui a uma delegacia e fiz um Boletim de Ocorrência.
De volta para casa, resolvi ligar para o meu celular. Uma voz de mulher atendeu. Eu perguntei quem estava falando e ela disse: a pessoa que encontrou o seu telefone. Conversei rapidamente e ela me contou que o filho achou o celular e que ela e o marido ficaram olhando para ver se alguém o procurava- eu fiz isso, mas não deve ter sido exatamente no local onde eu o perdi.
Achando que ela iria me cobrar alguma coisa indaguei o que eu precisava fazer para pegar meu celular de volta e ela respondeu: “vir pegar”. Me deu o endereço do seu apartamento e algumas horas depois o celular estava em minhas mãos.
Dona Marlene, este é o nome dela, é paulista e está morando há pouco tempo em Salvador.
Fiquei aliviada, e pensei que este tinha sido um bom presente de Natal. Não pelo celular, que como eu disse é básico, mas pelo senso de dever e a honestidade das pessoas que o encontraram. Isto meu deu esperanças. Talvez não devamos estar tão céticos em relação ao Brasil e ao seu povo. Nem sempre todos querem levar vantagem. Muitos querem ajudar. Talvez, quem sabe, a verdade seja a de que dona Marlene e sua família façam parte da regra e não da exceção. É reconfortante pensar nisso...
Feliz Natal!